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Sem as duas pernas, o triatleta "casca-grossa" coleciona títulos

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Pauê corre na areia da praia. Ele veste uma camiseta branca, bermuda preta, óculos escuros e está com próteses especiais para corrida.

 

 

 

 

Pauê teve de engatinhar aos 18 anos, quando se arrastou para sair debaixo de uma locomotiva com os faróis apagados que o atropelou em uma ferrovia desativada de São Vicente (litoral de SP). 

Andar mesmo, Paulo Eduardo Chieffi Aagaard, o Pauê, só conseguiu meses depois, com as próteses que fizeram as vezes de suas pernas, esmagadas no acidente que ocorreu há dez anos. 

Um ciclista foi o primeiro a vê-lo. O maquinista parou, mas não desceu, com medo das pessoas que se aglomeravam para saber o que havia acontecido. 

Entre o momento em que foi atingido até chegar ao hospital, Pauê não sentiu dor. Só na sala de cirurgia ele foi avisado sobre o que havia ocorrido. "O médico me disse: Rapaz, você perdeu parte das duas pernas e será operado. Quando acordar, viver sem elas será a sua realidade", conta. 

Ao saber que sobreviveria, Pauê só pensava em uma coisa: voltar a surfar, esporte que praticava desde os nove anos e que, naquele instante, servia de metáfora para as coisas que ele desejava continuar desfrutando. 

 

NA ÁGUA

Foram dois meses de internação. Já fora da UTI, sofreu três paradas cardíacas devido a um choque anafilático. "Aquilo não me desanimou. Algo me dizia que eu poderia seguir em frente."

Em meados de agosto, deixou o centro hospitalar e começou a reabilitação. Passou a fazer musculação para recuperar o peso perdido e depois voltou para a natação. Pauê sentia-se frustrado por não conseguir nadar como antes. "Sem as pernas, era muito difícil avançar. Fazia um esforço enorme, mas progredia muito pouco." 

Seis meses depois de ser atropelado, o garoto completou sua primeira travessia aquática, superando 1.500 metros. "Meu corpo estava reagindo", conta. "Aquilo foi uma alavanca muito forte." 

Voltar a praticar esportes foi a maneira que Pauê encontrou para se adaptar à nova rotina. "Não sabia nem mesmo como seria o meu relacionamento com as pessoas. Passei a usar o esporte para me ajudar nisso." 

Para afastar os olhares de pena, sua arma era o entusiasmo. "Se não fosse assim, iria me esconder do mundo." 

O acidente também não mudou sua maneira de encarar a sexualidade. "Acredite se quiser, o fato de ter perdido parte das pernas impulsionou [a vida sexual]". 

Os planos que decidiu traçar para se reerguer estavam progredindo. Poder voltar a surfar era um deles. Se antes era apenas mais um surfista entre tantos na Baixada Santista, sem as pernas, tornou-se o único. 

Tornou-se o primeiro surfista biamputado do mundo, um legítimo "casca-grossa", expressão dos surfistas para aqueles que se destacam em uma situação difícil. 

 

POLIVALENTE

Pauê costuma repetir que o esporte o catapultou para um mundo novo. Depois do surfe, ele conheceu o triatlo, esporte que reúne natação, ciclismo e corrida. 

Esses desafios diminuíam suas frustrações e amplificavam suas expectativas. 

"Quando me vi capaz daquilo, me vi capaz de tudo." 

Enquanto fazia o curso de fisioterapia, Pauê intensificou os treinos e começou a participar de competições de triatlo. Em 2002, fez a primeira prova. No início, o objetivo era só completar a prova. Então passou a competir, vencendo campeonatos e se destacando no cenário mundial.

"Passei a fase de apenas tentar mostrar que era capaz de fazer aquilo e me tornei um atleta profissional." 

Desde 2002, Pauê já foi campeão mundial de triatlo (2002), bronze no Pan-Americano (2003), pentacampeão brasileiro (de 2002 a 2006), tetracampeão internacional (2002, 2003, 2006 e 2007). Entre os treinos, divididos em dois turnos (manhã e noite), ainda dá palestras motivacionais em empresas. 

Aos 28 anos, não sabe dizer se seria mais feliz com as pernas. "Olho para trás e vejo o quanto eu aprendi." 

"Eu vivi mais em pouco tempo. Tudo isso me trouxe maturidade, discernimento e evolução espiritual." 

 

Fonte: Folha de S.Paulo - Cotidiano (13/06/10) 

 

 

 

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